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Neurologia

CBD e Epilepsia Refratária: Evidências Clínicas e Perspectivas Terapêuticas

Uma análise das melhores evidências disponíveis sobre o uso do cannabidiol no controle de crises convulsivas refratárias, com foco em Síndrome de Dravet, Síndrome de Lennox-Gastaut e outras encefalopatias epilépticas.

Equipe Científica CBMed28 de fevereiro de 202613 min de leitura
CBD e Epilepsia Refratária: Evidências Clínicas e Perspectivas Terapêuticas

A epilepsia refratária — definida como a falha em alcançar controle sustentado de crises após o uso adequado de dois ou mais fármacos antiepilépticos tolerados, de mecanismos de ação distintos — afeta aproximadamente 30% de todas as pessoas com epilepsia. Para essa população, especialmente crianças com encefalopatias epilépticas graves como a Síndrome de Dravet e a Síndrome de Lennox-Gastaut, as opções terapêuticas são limitadas e frequentemente acompanhadas de efeitos adversos significativos. O cannabidiol (CBD) emerge, nesse contexto, como uma das adições mais promissoras ao arsenal antiepiléptico das últimas décadas — com o mais alto nível de evidência clínica (Nível A) entre as indicações do CBD.

Mecanismos Anticonvulsivantes do CBD

O CBD exerce seus efeitos antiepilépticos por meio de múltiplos mecanismos de ação, distintos do mecanismo dos antiepilépticos convencionais — o que explica sua eficácia em síndromes refratárias às abordagens tradicionais:

  • 1
    Modulação de receptores de sódio: O CBD inibe canais de sódio voltagem-dependentes (Nav1.1, Nav1.6), reduzindo a excitabilidade neuronal patológica subjacente às crises convulsivas.
  • 2
    Ativação de receptores TRPV1: A ativação e subsequente dessensibilização dos receptores TRPV1 pelo CBD reduz a liberação de neurotransmissores excitatórios na fenda sináptica.
  • 3
    Inibição da adenosina quinase: Ao inibir essa enzima, o CBD aumenta os níveis de adenosina extracelular, um neuromodulador endógeno com ação anticonvulsivante bem documentada.
  • 4
    Modulação de receptores GPR55: O CBD antagoniza esses receptores, cuja ativação excessiva está associada à facilitação de crises.
  • 5
    Inibição da captação de anandamida: Elevando os níveis do endocanabinoide anandamida, o CBD promove efeitos inibitórios sobre circuitos hiperativos.

Os Grandes Ensaios Clínicos — Nível de Evidência A

A robustez das evidências clínicas para o CBD na epilepsia refratária é única entre as indicações de cannabis medicinal, com múltiplos ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo publicados nas mais prestigiosas revistas médicas do mundo.

  • 1
    Devinsky et al. — NEJM (2017) — Síndrome de Dravet: Este landmark trial randomizou 120 crianças com Síndrome de Dravet para CBD 20 mg/kg/dia ou placebo, em adição à terapia antiepiléptica em curso. O grupo CBD apresentou redução mediana de 38,9% nas crises convulsivas (vs. 13,3% no placebo; p=0,01). 5% dos pacientes atingiram ausência total de crises. Publicado no New England Journal of Medicine — o periódico de maior impacto da medicina.
  • 2
    Thiele et al. — Lancet (2018) — Síndrome de Lennox-Gastaut: Em 225 pacientes com SLG, CBD 20 mg/kg/dia reduziu em 41,9% a frequência de crises de queda (drop seizures) vs. 17,2% no placebo (p=0,0047). O estudo com 10 mg/kg/dia também demonstrou superioridade sobre placebo (37,2% vs. 17,2%; p=0,0016).
  • 3
    Devinsky et al. — Lancet Neurology (2018) — SLG (confirmação): Segundo estudo randomizado em SLG confirmou a redução de 43,9% nas crises de queda com CBD vs. 21,8% com placebo. Dados de extensão aberta de 96 semanas mostraram manutenção dos efeitos anticonvulsivantes com segurança a longo prazo.
  • 4
    Miller et al. — Epilepsia (2020) — Complexo de Esclerose Tuberosa: Ensaio clínico randomizado em pacientes com CET e epilepsia refratária demonstrou redução de 48,6% nas crises com CBD vs. 26,5% no placebo (p<0,01).

"A magnitude do efeito anticonvulsivante do CBD, combinada com seu perfil de segurança favorável em populações pediátricas, representa um avanço terapêutico genuíno para pacientes que haviam esgotado as opções terapêuticas convencionais."

Devinsky O. et al., New England Journal of Medicine, 2017

Interações Farmacológicas Relevantes

Uma consideração clínica crucial é a interação entre CBD e o ácido valpróico (valproato), antiepiléptico amplamente utilizado nas síndromes tratadas com CBD. O CBD inibe enzimas do citocromo P450 (CYP2C9 e CYP2C19), podendo elevar os níveis plasmáticos de valproato e aumentar o risco de hepatotoxicidade. A monitorização das transaminases hepáticas é mandatória antes e durante o tratamento combinado.

Outra interação importante ocorre com o clobazam — o CBD eleva os níveis de seu metabólito ativo N-desmetilclobazam (em até 500% em alguns pacientes), potencializando efeitos sedativos. A redução da dose de clobazam deve ser considerada conforme a resposta clínica.

Perfil de Segurança e Efeitos Adversos

Nos ensaios clínicos pivotais, os efeitos adversos mais comuns com CBD foram sonolenção (25–36%), diminuição do apetite (16–28%), diarreia (19–25%) e elevação de transaminases (15–20%, especialmente em uso concomitante com valproato). A maioria dos eventos adversos foi classificada como leve a moderada e manejável com ajuste de dose. Eventos adversos graves foram reportados em uma minoria de pacientes e geralmente associados a interações medicamentosas. A ausência de dependência física e tolerância farmacodinâmica ao efeito anticonvulsivante — ao contrário de alguns antiepilépticos clássicos — representa uma vantagem clinicamente relevante.

Protocolo Terapêutico Recomendado

Com base nos ensaios clínicos publicados e nas recomendações das sociedades de neurologia, o protocolo típico para uso de CBD em epilepsia refratária inicia com dose de 2,5 mg/kg/dia, dividida em duas tomadas, com escalada gradual de 2,5 mg/kg a cada 1–2 semanas conforme tolerabilidade e resposta clínica. A dose-alvo nos ensaios foi de 10–20 mg/kg/dia. O tempo de avaliação de resposta clínica deve ser de no mínimo 3 meses em dose estável. A via sublingual, utilizando óleos Full Spectrum de alta concentração (3000 mg ou 6000 mg por frasco), permite titulação precisa e biodisponibilidade consistente.

Referências

  1. [1]Devinsky O, et al. Trial of Cannabidiol for Drug-Resistant Seizures in the Dravet Syndrome. N Engl J Med. 2017;376(21):2011-2020.
  2. [2]Thiele EA, et al. Cannabidiol in patients with seizures associated with Lennox-Gastaut syndrome (GWPCARE4). Lancet. 2018;391(10125):1085-1096.
  3. [3]Devinsky O, et al. Effect of cannabidiol on drop seizures in the Lennox-Gastaut syndrome. N Engl J Med. 2018;378(20):1888-1897.
  4. [4]Miller I, et al. Dose-Ranging Effect of Adjunctive Oral Cannabidiol vs Placebo on Convulsive Seizure Frequency in Dravet Syndrome. JAMA Neurol. 2020;77(5):613-621.
  5. [5]Scheffer IE, et al. ILAE classification of the epilepsies: Position paper of the ILAE Commission for Classification and Terminology. Epilepsia. 2017;58(4):512-521.
Publicado em 28 de fevereiro de 2026 · Equipe Científica CBMed
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